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O amor, poeta, é como cana azeda, A toda boca que não prova engana. (Augusto dos Anjos)

Textos

Teologia tupiniquim do carnaval

E deus calou a voz do berimbau
pra ouvir o gemido da cuíca,
e bateu, com as luvas de pelica,
nos costados do ente infernal.

E demo, que era o dono do jornal,
fez publicar, na página de rosto,
que apesar de estar do lado oposto
tá de bem com o pai celestial.

E deus, que tá além do bem, do mal...
desceu do céu em plena terça-feira,
com sua longa e vasta cabeleira
e ofertou, pra demo, o seu aval.

Assim nasceu o bloco, tal e qual...
a marchinha, o frevo, o samba enredo...
o tamborim, a arma de brinquedo...
os foliões e o drama social.

O demo empregou seu capilal
numa escola de samba do inferno,
pra tentar enganar o pai eterno
e dar voz novamente ao berimbau.

E deus, que tá além do bem, do mal...
caiu, onipresente, na gandaia!
Abençoou a lança, a minisaia...
e, no barro, forjou o Carnaval.

Demo botou as roupas do varal
e caiu na folia, sorridente,
de sandália de ouro e de tridente
a rebolar o rabo e coisa e tal...

Deus fez do paraíso o seu quintal!
Deixou passar o bloco livremente:
adão e eva, a comissão de frente...
o engove, a cerveja, o sonrisal...

E, pra comemorar o grã final,
deu asas pra adão e pra serpente.
Herculano Alencar
Enviado por Herculano Alencar em 10/02/2018
Alterado em 11/02/2018
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