![]() Sexto sentido ( Menção ao Texto "Cheiro de safadeza no ar" de Tarcísio)
Era cega a velha dama! Enxergava pelo ouvido, pois via qualquer ruído até dum lençol na cama. Fosse uma boca na mama, o abrir duma braguilha, o roçar duma forquilha, o bulinar duma mão... Lá se ia, em oração, soletrando o Cê cedilha. Rezava pela cartilha do padre Romão Batista, desde que perdera a vista no chifre duma novilha. Soletrava, em redondilha, o missal do Padrim Ciço e firmava compromisso com os seus ensinamentos; bania os maus pensamentos, que logo dava sumiço. E talvez por causa disso mais aguçou os ouvidos; alijou seus "possuídos" e logo perdeu o viço. Valei-me meu padrim Ciço... Quase sempre repetia quando algo acontecia que lhe ferisse o pudor... Assim levava o andor como a vida lhe pedia. Era, a Tia Maria, -como era conhecida- cuidava toda comida da gente e da montaria, trabalhando dia à dia nas providências do lar, mas não deixava passar um nada, despercebido, lá estava o seu ouvido no ponto pra escutar. Pois agora vou narrar em redondilha maior. A estória eu sei de cor, mas careço anunciar. Ouvi Tarcísio contar bem antes deste cordel. Deixo pra ele o cartel, por ser dele a criação, mas, pelo sim pelo não, mando tinta no papel: "O quarto de dona Irene era mijo amanhecido!" Também cheirava a libido de mulher sem higiene. O odor era perene, dia e noite, noite e dia, fazendo tia Maria praguejar indignada, xingando cada mijada que dona Irene vertia. Apesar da arrelia, ela fazia o serviço orando pra padrim Ciço, como sempre ela fazia. —Inda pego essa vadia! Saía balbuciando... —Se te pego, desgraçada, te enfio no penico te meto mijo no bico e tolete na rabada". (Essa estória foi contada por Tarcísio Zacarias) Amigo de confraria e das linha mau traçada. Cabra de verve afiada, poeta de muita arte a quem eu, modéstia à parte, pretendo interpelar, como se pode explicar que uma velha quase cega ouve, aspira e enxerga a safadeza no ar. Herculano Alencar
Enviado por Herculano Alencar em 28/04/2006
Alterado em 17/07/2020 Copyright © 2006. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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