![]() O caçadô de Vampiro
Foi tiro e queda, seu moço! Os três caroço de chumbo, todos três no mesmo rumo, foi se alojá no pescoço. A onça soltô um trôço e gruniu de agonia. Pela luz que me alumia! Já vi cabra bom de tiro, mas iguá ao Valdomiro, nem os rei da monarquia. Inda me alembro do dia: Foi no primeiro de abril, já quais nos ano dois mil, lá do sertão da Bahia, -num lembro se chovia- que o caçadô, Valdomiro, o cabra a que me refiro, partiu pro sul africano, com seu matulão de pano, caçá um bicho vampiro. Num soltô um só suspiro na hora das despedida. Calçô as bota comprida, as calça de casimiro e partiu pro seu retiro: Polvorinho na cintura, carne seca, rapadura, farinha d'agua, pimenta... cabelo entupindo as venta: A sua maió fartura! Quem oiasse a criatura, era de tê pesadêlo, arrepiá todo os pêlo, inté senti a gastura de vê tamanha brabura pindurada no espinhaço, sem dá mostra de cançaso, sem um pingo de pavô. Valdomiro, o caçadô, nunca foi de tê cagaço. Lá se foi, marcando passo, cuma quem tá no quartel, se aprumando no chapéu, feito de papel almaço. Se foi... o home de aço, o nosso herói nordestino, galopando, sol a pino, em riba dum pangaré, que niguém punhava fé, fosse chegá no destino. Deu um cheiro nos menino e um arrocho na muié: —Inté quande Deus quisé, pelas graça do Divino; Lembrança pro Zeferino, pro Zé Ferro, pro Valdez, pro capitão, pro turquês, pras muié do Ateneu, tobém fica o meu adeus pros amigo português. Adispois de quase um mês, já em terra africana, bebeu dois litro de cana, quase tudo duma vez, sem senti a embriaguez, mode manter os sentido e ascutá os ruído das fera mais assasina, deu início na rotina, e aguçô os ouvido. Tirô, de couro curtido, uma tirinha de sola, que dava nó na sacola onde guardava escondido, herança dum falecido: A munição empregada, devidamente arrumada, nas caçada de espera, e a lazarina amarela de coronha envernizada. Deu-se início a caçada. Só ele e sua corage, naquela mata selvage, atrás da fera encantada. Vertia sangue, a malvada. Era só o que sabia. Mode ninguém conhecia, que até falá dava mêdo. O nome era um segrêdo que o matagal escondia. A primera valentia veio logo e sem demora, quande no nascê da aurora, uma medrosa cotia, de assutada, corria de uma vara de queixada. Lazarina carregada, cuspiu pra tudo que é lado e no lugá foi deixado cinquenta tripa furada. E a cotia, coitada! De tanto agradecida, se ofereceu de comida, sendo, é claro, injeitada. Hoje ela tá vacinada, num zoológico da cidade, provando a veracidade deste fato acontecido. Tivesse, a bicha, morrido, iam chamá de covarde. Dispois, um pouco mais tarde, outra prova de bravura: Um leão de meia altura quis amostrá sua arte. Ele, prevendo o desastre, engoliu quatro caroço, botô as mão no pescoço, e o cu no rumo do vento; Ajustou o pensamento pelo o tamanho do trôço e arremeçô, sem esforço, um peido tão fedorento, que o bicho lazarento, que já num era tão moço, ficou que nem carne e osso, as banha se derreteu. E tudo o que ele cumeu nos longos ano de vida, é uma estauta escupida, que hoje enfeita o museu. Outro dia amanheceu pro valente caçadô. O dia de mais calô, dispois que o leão morreu. Antes ele do que eu, cuma se diz no ditado. —Descanse em paz o coitado! Matutava, Valdomiro. Dispois dum breve suspiro, quande avistou um viado. —Tava tiquin assustado, Como quem tivesse afim... Oiô de longe pra mim, cum jeito desconfiado; ensaiô um rebolado e fugiu em disparada, mantendo a calda arriada protegendo o orifício, que, por obra de ofício, deixou as pata cagada. Atrás dele uma manada de bicho rinoceronte, cada um o mais gigante, com as boca escancarada, parecendo dá risada, niguém sabe lá do quê; Danou-se os pé a corrê no rumo de valdomiro; Só precisô dá um tiro e oiá os bicho morrê. Fizero por merecê o chumbo do caçadô, que inda fez o favô de num botá pra sofrê. Eu digo a vocimicê, que em outra ocasião, talvez capasse os cunhão antes da morte chegá, pra enfiá no lugá, donde escapa a digestão. Agora... muita atenção! Chegô a hora esperada... Valdomiro e a caçada sozinho na escuridão... As tripa de prontidão, roncava que nem cuíca, o cu assoprando a pica com as reserva pum, o gaz de seu dejejum: Batata doce e canjica. E foi tanta pulitrica na espera do vampiro, que só mesmo Valdomiro, cuma a estória publica, pôde assiná a rubrica pra dá autenticidade, pois qualqué otoridade que saiba hematofilia aceita, por serventia, que tudo isso é verdade. No céu, uma claridade: É noite de lua cheia! Vampiro esperando a seia... E, ele, oportunidade... Tinha um cheiro de maldade espalhado pelo vento, que a emoção do momento parecia num tê fim, e até os mói de capim serviam de documento. Apareceu o sangrento! Um estranho animal, de boca na vertical, exibindo o seu talento. No primeiro movimento, Valdomiro, dominado, jogô as arma de lado e os dote de caçadô. Seja esse bicho o que fô: O caçadô foi caçado! Herculano Alencar
Enviado por Herculano Alencar em 08/06/2013
Alterado em 25/10/2015 Copyright © 2013. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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