![]() Era uma vez...
Todo conto interessante começa: Era uma vez... Pois vou contar o que fez lá no inferno de Dante um famoso meliante um tal de "Pequí Roído", que viveu e foi parido em Codó, no Maranhão, vendeu a alma pro cão, que lhe deu este apelido. Era uma vez um bandido, cabra metido a valente, que punha medo na gente fosse de calça ou vestido. Dizem que era temido até mesmo no inferno. Roubou o leite materno do irmãozinho pequeno e deu pra ele um veneno conzido no fogo eterno. Herdou, do lado paterno, uma lanterna vermelha, um defeito na orelha, um paletó e um terno. No finzinho do inverno dos idos de vinte e dois, talvez um pouco depois, deu início a sua estória, e alguém guardou na memória, pra dar o nome aos bois: Acácio Pereira Costa, "Bandido da Luz Vermelha, fez tudo o que deu na telha, do jeito que o diabo gosta. Cagava e comia a bosta, pra escapar dum meganha, corria vale e montanha, mata fechada e caatinga, e ainda bebia pinga água de coco e chapanha. Tinha pernas de aranha, pra escalar paredão; o faro de Lampião e também, a artimanha. Apesar da voz ser fanha, não demonstrava fraqueza. Mantinha a lanterna acesa nos olhos do inimigo e a faca no pé d'umbigo pra morte lhe dar certeza. Um vez, em Fortaleza, robou o Banco Central e fugiu da capital, pra curtir a natureza, pois ele tinha certeza que ninguém o acharia, fosse de noite ou de dia, no campo ou na cidade. Foi avançando a idade, chegou aos cinquenta e cinco, trabalhando com afinco pela criminalidade. Até, que uma bela tarde, teve um final merecido: uma bala no ouvido atirada sem alarde, que até hoje inda arde no cano da carabina, deu fim a verve assassina do cabra da luz vermelha. Só sobrou meia orelha e os cabelos da narina. Pra não sair da rotina do cordelista moderno, Dante o levou pro inferno, à luz duma lamparina. Fez exame de urina, hemograma, glicemia... tirou-lhe a fotografia, ofereceu-lhe álcool-gel... e deu um fim pro cordel, que nem o diabo previa. E escreveu à revelia das regras gramaticais, ora menos, ora mais, seus erros de ortografia foram dando à poesia um feitio singular: tudo fora do lugar, a oração sem sujeito, e até o verso perfeito tinha uma rima vulgar. Só Herculano Alencar, cabra metido a poeta, que faz gol de bicicleta quase parando no ar, pode enfim testemunhar e encontar a resposta, para a razão suposta do mal que o bandido fez, e contar: Era uma vez... Acácio Pereira Costa. Herculano Alencar
Enviado por Herculano Alencar em 26/06/2021
Alterado em 29/06/2021 Copyright © 2021. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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