![]() O barão de Timon (versão final)
Um mentiroso alemão passou pelo Piauí, e despachou, por aqui, um bastardo, meio-irmão, que migrou pro Maranhão a nado, no Parnaíba, rio abaixo, rio arriba... com dez facões e um fuzil (coronha de pau-brasil) e as Vassouras de Capiba. Quem vos conta é o escriba, o cordelista Herculano, que ora faz mais um ano, mais um pentelho na giba. E antes que alguém proíba o direito de expressão, roubo a pena de Azulão, cego Aderaldo e Limeira, pra, numa prosa ligeira, repaginar o Barão: Numa noite de são João, sob o luar da floresta, cabelo cobrindo a testa, em completa escuridão, o famoso meio-irmão do barão da Alemanha iniciou a façanha, nas plagas de Teresina, como a saga determina, apesar de muito estranha. Deu-se início uma campanha, nas águas do "Velho Monge", quando avistou-se de longe, uma enorme ariranha: quinhetos quilos de banha o rabo, descomunal, a coluna vertebral parecia não ter osso, e nadava, sem esforço, como as velas de Cabral. Era em pleno carnaval, num dia de fevereiro! E quem avistou primeiro o enorme animal? Só podia ser o tal descendente do barão. Pra manter a tradição da mentira inteligente, retirou uma serpente da costela de Adão. E pelo sim, pelo não, deu um tiro de fuzil num javali, já senil, sem força pra reação. Fez um buraco no chão, pra sepultar o coitado e atrevessou, num só nado, um cardume de piranha, de olho na ariranha, que vinha do outro lado. É fato documentado, nessa batalha naval. Zé Limeira deu aval de contador consagrado, num cordel já editado: o tal Cordel Coletivo, que consegue manter vivo o etilo do Cordel, e cumprir o seu papel de mentor educativo. Como sempre há um motivo pra fazer literatura, vou voltar à criatura, no momento decisivo, que o instinto primitivo de mentiroso falaz faz um bardo ser capaz, num ato desesperado, cagar de pé ou sentado e não perder o cartaz. A ariranha voraz, nadou pra cima do cabra que disse: abracadabra, fez uma reza fugaz... E, em nome de São Tomaz, São Raimudo, São Tomé... remessou um cangapé no rabo da ariranha, com uma força tamanha, talvez maior que a fé. A fera deu marcha à ré, fez uma cara sentida... lambéu um pouco a ferida... ficou de orelha em pé... começou dançar balé, rio abaixo, rio a riba... pediu enfim ao escriba, que por acaso é poeta: escreva a versão completa e mande pra Paraíba. E antes que alguém exiba um mandato de prisão ou conceda extradição... Ribamar, o velho Riba, que saiu da pindaíba e tornou-se advogado, me disse: -fique calado sobre o caso ora exposto, até o fim de agosto, quando será publicado. Assim, de bico fechado, este escriba de araque caprichando no sotaque de poeta aposentado, vai mentindo lado a lado do bastardo do barão, até que o filho cão dê um fim nessa barganha e convença a ariranha que o mar já virou sertão. Por pura imaginação, vou mudar a tragetória e dar um fim nessa estória, como manda a tradição: Um enorme tubarão apareceu nesse instante, com sua boca gigante e sua fome canina, e abocanhou na surdina o verso que segue adiante: Um tal de Miguel Cervante, sem o "s", pra dar rima, escreveu a obra prima dum cavaleiro errante (tenho o livro na estante), o famoso Dom Quixote, sujeito magro e baixote, amigo de Sancho Pança, com quem firmou aliança fazendo o seguinte mote: "Quem sabe dançar o Xote sabe dançar o Baião." De volta pro tubarão, sonetando um estrambote, o safado deu um bote, comeu o fecho de ouro a banha, a carne, o couro... do barão, da ariranha... Hoje vive na Espanha, comendo chifre de touro. Num futuro inda vindouro vou escrever um romance, se Deus me der uma chance, sobre um fenício e um mouro, um moreno o outro louro, que viveram na Baía, escrevendo poesia feita em tupi -guarani. Vou parando por aqui, adeus, até algum dia! Lembrança para Sofia, para a princesa Isabel, pros poetas do Cordel, para o Manuel Maria du Bocage e sua cria: o soneto "Contrição." Também deixo saudação aos poetas do Recanto. Vai um versinho pro santo e outro vai para o cão. Sem querer fazer sermão, pois não é o meu estilo, enfio isso e aquilo na "Caverna de Platão", e, com a pena na mão, digo em alto e bom som, que o barão de Timon foi pro mundo digital... Hoje escreve, bem ou mal, no mentiras ponto com. Herculano Alencar
Enviado por Herculano Alencar em 28/06/2021
Alterado em 29/06/2021 Copyright © 2021. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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