![]() O jegue misterioso (reedição)
Todo dia de noitinha nas banda de Jaicó, se assunta a ladainha do coveiro, Seu Jacó, arrelatando um gemido, tão triste, tão dilurido, que inté o diabo tem dó. __"É coisa de dá arrepio na alma de um cristão. O cabra morre de frio mesmo no alto verão. Molha as calça de suó ou uma coisa mais pió, bota peso no calção." __"É pió que assombração quande a lua tá minguante, mais pió de que sermão de pade muito falante; e mais pió, meu amigo, de que fleimão no imbigo e chifre de mau amante." Dá seguimento na estória cum sua fala de coveiro: __"Dou a mão à palmatória dou cem conto em dinheiro, prá qualqué cabra da peste de norte a sul, leste a oeste, que quizé sê o primeiro cabra macho e distemido, que em noite de pouca lua, quande sol tivé sumido, nenhum vivente na rua, entrá nesse cemitério e discobrí o mistério, e cuma é que ele atua." Em não havendo resposta, levantei minha valentia: __Tá aceita a sua aposta, pois marque a hora e o dia que este cabra que vos fala vai tá de cuia e de mala junto a Vossa Senhoria. E declinei o meu nome que é pra niguém duvidá, acrescido o sobre-nome: __Herculano de Alencá. Parido de Margarida, minha mãe, a mais querida, que alguém jamais pôde amá. Por pai, o Seu Segisnando que atende por véio Sisa, que ainda tá no comando ajudando a quem precisa. Logo ao sê aposentado, me enviou um recado, que tá vivendo de brisa. Dia e hora marcada, cuma é dos compromisso, metí os pé na estrada, discreto e sem rebuliço; cheguei inda madrugada cas roupa toda suada, benzida por padin Ciço. Me apresentei pro coveiro: __Seu Jacó ói eu aqui! Vá preparando o dinheiro, pois cabra do Piauí num foge de lobisome, nem é de passá vexame pro mode dalgum Saci. O coveiro deu risada com seu dente de marfim! sua bôca escancarada tinha um bafo ruím, que até já era assunto: "seu Jacó come defunto como quem come pudim." Marchemo pro cimitério, Jacó na frente, eu atrás. Ele cuspindo impropério, maldizia o satanás e a mula sem cabeça, e tudo o mais que pareça com os vivente infernais. Era quase luz da lua quande chegamo ao destino; poucos vivente na rua: dois cachorro e um felino. Atravessemo o portão, foi quande o meu coração reclamou dos intestino. Um vento frio de morte bateu por riba de mim, vindo do sul para o norte cortando os mói de capim. Me arrepiô os cabelo e todo o resto dos pêlo, inté as pedra do rim. Foi quande ouví um grunido cortando as iscuridão, mais forte do que um latido, mais fraco do que um truvão, de fazê borrá as calça, dançá frevo que nem valsa e valsa que nem baião. Procurei por Seu jacó, que bateu em retirada, que nem cachorro cotó dispois da calda cortada. Do danado do coveiro, nunca mais sentí o cheiro e nem ouvi a risada. E me largô lá sozinho em completa solidão, rodeado de vizinho habitante de caixão. Se pego o cabra da peste, vai sê mais um cafegeste que ia perdê os cunhão. Mas cabra do Piauí num intrega a rapadura, é de matá sucurí e amostrá as dentadura. Vou cumprí meu desafio, desde o fio ao pavío, num vai sobrá sepultura. E assim foi dito e foi feito: seguindo a intuição, afinquei o pé direito e botei o ó na mão, só pra mantê garantia, que com tanta valentia num iria obrá no chão. Me embrenhei pela a mata sempre de orêia em pé. Ouvi zuada de pata de bicho de quatro pé. por detrás de um arbusto. Refeito, dispois do susto, fui expiá o que é. Me acredite meu cumpade, num sô cabra de invenção. Já vi batina de pade correndo de assombração. Mas eu nunca ví na vida, visage tão parecida com sacanage do cão. Era um jegue adurmecido, que tirava uma soneca do lado dum falecido, cunhecido por Seu Zeca; O Seu Zeca do jumento, cabôco tão avarento, que num dobrava munheca. Foi a chave do mistério do coveiro lazarento! Quem leva o cordel a sério nem precisa documento: O gemido doloroso, do causo misterioso, era o ronco dum jumento! Ratifica o padre bento das estórias de Trancoso. Herculano Alencar
Enviado por Herculano Alencar em 13/09/2021
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