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Um brinde a saudade
Adeus
O adeus é um gérmen da saudade, que brota e floresce, e ganha o mundo. Ele enraíza tanto, e tão profundo, que mata pouco a pouco a liberdade. Todo adeus tem um quê de majestade que avassala um coração fecundo: Semeia, rega, e guarda no fundo os grânulos do amor e da maldade que desabrocham juntos, e se vão... até que a vida imerja, à metade, em sua mais profícua servidão. Desfaz-se, da razão, a insanidade! E, de insanos súditos, se vão... juntar a novo adeus nova saudade. Amor retirante Na bagagem, o amor leva saudade: Lencóis umedecidos pelos prantos! Leva seus beijos, que não foram tantos, pois que só leva beijos de verdade. A mala do amor é a soledade! Um matulão que nossa dor teceu ruído pelas traças do adeus e embolorado pela piedade. Na partida o amor é retirante! Um nômade, nas trilhas da esperança, atrás de um porto em mares ondulantes. Navega dia e noite e não se cansa de embarcar no porto um novo amante que o acompanhe em sua eterna andança. Bordéis de saudades O que faço das saudades que em mim moram, Já que são sementes, já que são raízes!? Saudades das donzelas, as meretrizes, que emprestavam amor...Para onde foram? Saudades da primeira namorada, do primeiro beijo, do primeiro abraço... seu peito em meu peito acertando o passo... a boca ansiosa, pequena morada de um amor nascente como a luz do dia, mas que foi crescendo para eternidade... para encontrar Deus e virar saudade e, uma vez saudade, virar poesia. O que faço das saudades que em mim moram Já que deram frutos, já que germinaram!? Saudades que os anos acalentaram, e que, toda noite, os meus dias choram. Carrilando a saudade Lá vai o trem tocando carrilhões... Levando saudades, mimos de infâcia! Vai, claudicando, comendo distância... E carregando o tempo nos vagões. Porque o trem tem lá suas razões pra carregar a vida pelos trilhos, e pra cantar dolentes estribilhos, e embalar lembrança em procissões. Lá vai o trem fugindo de estações, posto a gemer bucólica poesia... O trem de Minas, que beija a Bahia, e dana-se a carrilar recordações. Por falar na saudade de Rosa Pena Saudade é o que fica do que foi quando o que foi faz falta ao que fica! É um não-sei-o-quê, que não se explica e deixa tudo e nada pra depois. Saudade é reler —de Rosa Pena— uma de suas crônicas antigas: aquela em que conta, a uma amiga, do beijo no escuro do cinema. Saudade é acordar em Ipanema e escrever, na areia, um poema dos versos devolvidos pelo mar. Saudade é enfim, e, finalmente, aquilo que ficou na nossa mente quando o que foi tem pressa de voltar. Era uma vez... Era uma vez um resto de saudade, que habitava um coração antigo. Sobrevivia como por castigo e de tão velha já não tinha idade. Vivia, como vive uma saudade, num coração, agora já senil, de quem ficou chorando o que partiu deixando, duma lágrima, a metade. Era uma vez um resto de saudade, que navegou na lágrima vertida e naufragou em plena despedida, antes que desabasse a tempestade. Era uma vez um resto de saudade que há de ser o meu resto de vida. Hora perdida Bati minha saudade em tua porta à meia noite do dia marcado. Ouvi teu coração do outro lado, mas o silêncio foi tua resposta. E eu também me pus, ali, calado, a esperar que a porta se abrisse para dizer-te tudo o que não disse e entregar-te todo amor guardado. Mas não ouvi sequer um só rumor! Sequer um só suspiro, um aviso... um soluço, que fosse, um sorriso... nem um sinal de vida e de amor. Peguei minha saudade e parti, levando, na bagagem da incerteza, pedaços de lembrança e de tristeza e todo o silêncio que ouvi. Jorge Sales: o nome da saudade! Saudade eu vou sentir, eu sei que vou! Não sei por quanto tempo, meu amigo! Mas se sentir saudade é um castigo, será então que Deus nos castigou!? Não sei ao certo qual foi o motivo que fez com partisses tão ligeiro. Não sei por que razão foste o primeiro, se há tantos poetas inda vivos. Saudade vou sentir, pois a saudade é como dividir, pela metade, ausência e presença de quem alguém. É dividir também com quem ficou um pouco da lembraça que matou um fio da lembrança que se tem. Lágrima traída Cintilante, a lágrima passeia tangendo a aflição da minha boca. Sem dar ouvidos a minha voz rouca, cai, sepultando a dor por sob areia. Meu coração de pronto titubeia! Chora, no seu infarto de paixão, a lágrima que cai do coração, regando a dor que vai servir de ceia. Olho pro nada com o olhar contrito; Cerro meus lábios pra engolir o grito, que a saudade em mim emudeceu. E vejo a sua boca de partida, levando o beijo que por toda a vida acreditara que só fora meu. Lembranças recorrentes Hoje eu me lembrei de te esquecer! Fui passear no album de fotografias, pelos caminhos da saudade que tu ias, seguindo rastros que jamais pude entender. Porque será que eu quero tanto esconder, mas deixo à mostra tão antigas cicatrizes, as marcas vivas e indeléveis dos deslizes, que a juventude me levou a cometer? Não sei... Não sei... Quem saberia! Nos labirintos, as saídas são entradas; não há um norte verdadeiro na estrada e o sofrimento dá as mãos para alegria. Ontem, eu me esqueci de te lembrar! Doeram-me cicatrizes sem palavras, então, eu entendi que eram escravas, que a saudade resolvera libertar. Metáforas da saudade Metáforas da saudade Amor de mãe... o filho já crescido teima ficar premido na lembrança, como um primeiro passo de criança, ou um primeiro dente amolecido. Olhar pra trás... o tempo já vivido; o beijo da primeira namorada; página de revista, ejaculada, que inda hoje guarda seus gemidos. Saudade é escutar os tempos idos; ouvir um sonho antigo a cada dia! Saudade é remexer coisas vazias pra encontrar o livro nunca lido! Amor de mãe... o filho falecido teima ressuscitar-se em poesia. O que hei de fazer dessa saudade! O que hei de fazer dessa saudade que embassa-me a luz, já tão distante! A luz do seu olhar -luar minguante- roubou, do meu olhar, a claridade! O seu olhar de adeus sem piedade sorriu (como quem conta uma piada) e foi-se, e perdeu-se na estrada que trai os labirintos da saudade. Os anos viajaram, desde então, levando o seu sorriso na bagagem. Hoje, esbaforidos da viagem, descansam na penúltima estação. O beijo, que secou na sua mão, disse-me o que fazer dessa saudade: Fingir que o adeus não foi verdade e mergulhar no mundo da ilusão. Saudade Saudade, um fim de tarde anoitecido. O sol deitando os raios no poente. Saudade, dor distante, indulgente, que dói só por forjar algum gemido. Saudade, o olhar da minha gente perdido sabe lá, meu Deus, por onde. Saudade, uma lembrança que se esconde por trás d'alguma sombra no presente. Saudade, um fim de noite amanhecido. O sol rasgando o sono das manhãs. Saudade, um revoar de jaçanãs que ainda voam cá, no meu ouvido. Saudade, dor que dá algum sentido às dores que não têm solução. Saudade, um ponto de exclamação no verso, de um poeta, nunca lido. Saudade, uma espécie de sentido que nem pra Deus existe explicação. Sonho de criança Livre eu levitava pelo azul do céu junto dos meus sonhos e pesadelos. Os que eu tive, os que não pude tê-los, e aqueles que ganhei como um troféu. Sonhava, assim, tudo o que eu podia: O amor, o ódio, a luz, a escuridão... Sonhava o mundo em sua imensidão do tamanho que eu bem queria. Sonhava Deus, um poço de bondade... As barbas brancas alongando o riso, indo do céu até o paraíso, como uma ponte de felicidade. Sonhava o amor -uma menina- ainda tão pudica e delicada, mas que feliz de se saber amada, já inquiteva a alma feminina. Sonhava um sonho lindo de verdade, de ingênuos risos e de brincadeiras; de amizades puras, verdadeiras... que a vida inteira vou sentir saudade. Até que um dia não sonhei criança. Tornei-me adulto em sonho e pensamento. Fatídico aquele dia, inda lamento não tê-lo excluído da lembrança. Trouxe-me arrogância, hipocrisia... Os meus amigos já não eram tantos, os meus brinquedos, sem os seus encantos, perderam a dimensão da fantasia. Hoje, homem feito, só espero o dia de dormir adulto e acordar criança. É o que me resta! Resto de esperança de que me volte no sonho a poesia! Tu Tu foste a triste sombra, entristecida, à sombra do presente e do passado. Os passos, no caminho equivocado, que dei ao caminhar por essa vida. Tu foste o amanhã da despedida que fez-me enoitecer depois da aurora! Tu foste quem chorou, e ainda chora, a dor de uma saudade não sentida. Tu foste um vulto, ao lado do meu passo, à espera de matar-me de cansaço e sepultar meu corpo ainda vivo. Tu foste aquela cota de desgraça que fez concretizar a ameaça, que sempre hei de chorar sem ter motivo.
Herculano Alencar
Enviado por Herculano Alencar em 12/09/2009
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