No prelo há mais de 50 anos...

O amor, poeta, é como cana azeda, A toda boca que não prova engana. (Augusto dos Anjos)

Textos

Peadelo endoscópico

Aquele olhar de quem enxerga tudo,

Ao penetrar nas minhas entranhas,

Foi olhando com vistas estranhas,

E me deixando cego surdo e mudo.

 

Tangeu-me, sem nenhuma parcimônia,

para beber meu suco digestivo

como se fosse algum aperitivo,

antes de começar a cerimônia.

 

Aquele olhar agudo, sem-vergonha,

Olhou-me cada alça intestinal:

O  duodeno, o reto e coisa e tal...

Atrás d'algum vestígio de pamonha.

 

Eu acordei no bico da cegonha 

E nunca mais voltei pro hospital.

 

Herculano Alencar
Enviado por Herculano Alencar em 13/01/2007
Alterado em 04/08/2025
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