![]() A saga de Adão
No princípio era nada, quiçá um pé de maçã. Até que certa manhã, como num conto de fada, a cobra que foi criada pra servir à tentação, entre as pernas de Adão, botou a língua de fora e em menos de meia hora fez grande revolução: Acendeu o lampião das noites do paraíso, tocou a língua no guizo fez elogio pro cão. E de lá, até então, como narra a escritura, o molejo da cintura deu à luz ao rebolado, que dá vazão ao pecado quando a fruta tá madura. Adão saiu à procura dum novo lugar ao sol, com a vara sem anzol, um naco de rapadura, o toucinho da gordura extraído da serpente, um tonel de aguardente, um cigarrinho de palha, um matolão para a tralha e Eva marchando à frente. Como o dia estava quente e não tinham guarda-sol, andavam em caracol (à exemplo da serpente), quando mais que de repente, lá das entranhas do céu, uma folha de papel caiu defronte ao cortejo e Adão sentiu o desejo de escrever um cordel. E rabiscou no papel em redondilha maior, indo de mal a pior, (como um novo menestrel), quando assuntou um tropel e descobriu, por acaso, que entre o fim do ocaso e o brilho da lua nova dividiria uma cova, com um qualquer do Parnaso. Para não perder o prazo logo depois do natal, se alistou no carnaval, ainda soldado raso. Fez xixi fora do vaso, desde a coxa ao calcanhar. Sentou à beira do mar, bebeu da água salgada... e acordou de madrugada chamando o sol de luar. Hoje, na mesa do bar, a serpente abana o guizo. Saudade do paraíso? Da maçã e do pomar?... Se niguém sabe explicar as coisas do Criador, é razoável supor, que eu não saiba também. Só resta dizer amém... e dar a vez ao leitor. Herculano Alencar
Enviado por Herculano Alencar em 05/06/2015
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