![]() A proeza do cordel
Embora cega, a madama assuntava de ouvido qualquer que fosse o ruído, até de lençol na cama. Fosse uma boca na mama, o abrir duma braguilha, o som do rádio de pilha em busca duma estação, ou um dedinho da mão a cavocar a virilha. Dizem que a Dona era filha do padre e da cafetina, e que vazou a retina no chifre duma novilha, e que rezava a cartilha, nos missais do Padin Ciço, pra firmar o compromisso com os seus ensinamentos e banir maus pensamentos, quando abraçasse um noviço. E talvez por causa disso mais aguçou os ouvidos, alijou seus "possuídos" e logo perdeu o viço. "Valei-me meu padrim Ciço!" Quase sempre repetia, quando algo acontecia, que lhe ferisse o pudor... Assim levava o andor nos ombros, dia após dia. Vivia Dona Maria, como era conhecida, posta a cuidar da comida da gente e da montaria, da cela, da estrebaria, dos provimentos do bar... mas não deixava passar um nada despercebido: lá estava o seu ouvido no ponto pra escutar. Oque me coube contar em redondilha maior, embora saiba de cor, eu careço anunciar, que um menestrel do lugar, bem antes deste cordel, fez merecer o troféu por esta vã criação, que, pelo sim pelo não, ora escorro no papel: "O quarto de dona Irene era mijo amanhecido!" Também cheirava a libido de mulher sem higiene. O odor era perene, dia e noite, noite e dia, fazendo Dona Maria praguejar indignada, a xingar cada mijada que dona Irene vertia. Apesar da arrelia, ela fazia o serviço rezando pro padim Ciço, enquanto se maldizia: —Inda pego essa vadia, essa sendeira safada, e logo após a mijada lhe enfio num penico: sabão em barra no xico e sabugo na rabada. E assim seguia a toada como era de costume: Maria com o queixume, Irene com a mijada... até que na madrugada, sob um céu azul-anil, Dona Maria partiu pra cidade do além e dona Irene também, só que esta ninguém viu. No dia um de abril do ano sessenta e nove, há quem diga e há quem prove, nessa pátria mãe gentil, que Dona Irene sumiu logo após Dona Maria, porque ambas foram cria das estórias de cordel, capaz de juntar no céu a reza e a putaria. Herculano Alencar
Enviado por Herculano Alencar em 02/11/2015
Alterado em 02/11/2015 Copyright © 2015. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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