![]() A saga de Adão (saído da oficina com alguns reparos)
No princípio era nada, quiçá um pé de maçã. Até que certa manhã, como num conto de fada, a cobra que foi criada pra servir à tentação, entre as pernas de Adão, botou a língua de fora e em menos de meia hora fez grande revolução: Acendeu o lampião das noites do paraíso, tocou a língua no guizo fez elogio pro cão. E de lá, até então, como narra a escritura, o molejo da cintura deu à luz ao rebolado, que dá vazão ao pecado quando a fruta tá madura. Adão saiu à procura dum novo lugar ao sol, com a vara sem anzol, um naco de rapadura, o toucinho da gordura extraído da serpente, um tonel de aguardente, um cigarrinho de palha, um matolão para a tralha e Eva marchando à frente. Como o dia estava quente e não tinham guarda-sol, andavam em caracol (à exemplo da serpente), quando mais que de repente, lá das entranhas do céu, uma folha de papel caiu defronte ao cortejo e Adão sentiu o desejo de escrever um cordel. E rabiscou no papel em redondilha maior, indo de mal a pior, (por ser novo menestrel), quando assuntou um tropel e descobriu, por acaso, que entre o fim do ocaso e o brilho da lua nova dividiria uma cova, com um bardo do parnaso. E pra não perder o prazo, logo depois do natal, se alistou no carnaval, ainda soldado raso. Fez xixi fora do vaso, desde a coxa ao calcanhar, sentou à beira do mar, bebeu da água salgada... e acordou de madrugada chamando o sol de luar. Hoje vai, de bar em bar, junto à turma do funil, a cantar amor febril, por todo e qualquer lugar. E segue assim, devagar, a escrever, quem diria: a autobiografia, desde a sua criação. Corrigidos, pelo cão, os erros de ortografia. Herculano Alencar
Enviado por Herculano Alencar em 11/02/2018
Alterado em 19/04/2021 Copyright © 2018. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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