![]() Criança felizAndava de pés no chão, Nu da cintura pra cima. Cada palavra uma rima, Cada rima uma emoção. Andava na contramão, Sem provocar acidente, E também, de trás pra frente, Sem nunca errar o caminho, Pois seguia um passarinho, Que cantava alegremente.
Fosse estio, fosse enchente, Maré baixa, maré alta, Ele jamais dava falta, Do passado ou do presente, Pois que era simplesmente Uma criança feliz, Com catota no nariz. Soltava pum sem pudor De esconder o odor... Dizia: —fui eu que fiz!
Era seu próprio juiz, Honesto, imparcial... Fosse pro bem ou pro mal, Senhorita ou meretriz... Não desbotava o verniz Pra enganar seu ninguém E não mentia também Pra esconder um pecado Fosse presente ou passado Do padre Nosso ao amém.
Ele ia muito além Das fronfeiras do juízo, Muito além do paraíso, Onde o mal se rende ao bem. Nunca fez mal a ninguém, Pelo menos consciente, Sempre foi obediente Aos conselhos de seus pais, Até que nos genitais, Algo ficou diferente.
E então, dali pra frente, Foi mudando a cada dia: Já não cantava, nem ria, Parecia um pouco ausente. E não mais que de repente, Foi ficando encabulado, A julgar tudo pecado. Até um simples desejo, Acordava-lhe o pejo E a sensação de culpado.
Cada dia mais calado, Arredio e mais estranho... Não queria tomar banho... Deixando as coisas de lado. Parecia envenenado Por um tipo de peçonha Que o matava de vergonha Fosse um motivo qualquer Como os seios de mulher Mais rijos do que suponha.
Já duvida que a cegonha É quem carrego o bebê
Herculano Alencar
Enviado por Herculano Alencar em 29/04/2024
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