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O amor, poeta, é como cana azeda, A toda boca que não prova engana. (Augusto dos Anjos)

Textos

O par humano

E da imensa e grã-sabedoria

nasceram os gineceus e androceus,

que se opuseram as dádivas de Deus,

em nome duma eterna confraria.

 

E penetrou, a seiva que vertia

a deslizar no caule do carvalho,

por um discreto e displicente talho,

que o ventre da floresta escondia.

 

E fez-se um milagre, à revelia

da sanha onipotente do Senhor,

quando o viril girino fecundou

o óvulo vital da poesia.

 

Do lado oposto, posta à revelia,

a vítima da flor e da espada

vertia seus humores pela estrada,

sem saber, com certeza, aonde ia.

 

Enfim, da inumana assepsia,

morreram os gineceus e androceus.

E cada um dos súditos de Deus

matou-se pelo pão de cada dia.

 

Há dúvidas se Deus não conhecia

os filhos, que em verdade, eram seus.

 

 

Herculano Alencar
Enviado por Herculano Alencar em 14/08/2025
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