No prelo há mais de 50 anos...

O amor, poeta, é como cana azeda, A toda boca que não prova engana. (Augusto dos Anjos)

Textos

O Zé Limeira moderno

O Zé Limeira moderno

Faz repentes em soneto,

Retrato em branco e preto,

Usa gravata, usa terno...

Poetiza o Pai Eterno,

Com versos de rima rica,

E deixa em baixo a rubrica,

Assinado: Zé Limeira,

Poeta, à brasileira,

Que diz que vai, quando fica.

 

Quando espirra, ele salpica

Num lencinho de papel.

E quando escreve Cordel,

Usa luva de pelica.

De férias na Martinica,

Sobe cachoeira arriba.

Dança um Frevo de Capiba,

Muito melhor que passista,

E nunca perde de vista

As águas da Paraíba.

 

Hoje diz que é escriba,

Interpreta as escrituras

Esboça caricaturas,

Quando tá na pindaíba.

Roga a Deus que não proíba

Exercer o seu talento,

Pois já vai tomar assento

Na mais nova academia,

Em que Mia Couto mia

E Drummond dorme ao relento.

 

Peço ao leitor um momento

Pra um dedinho de prosa,

Com João Guimarães Rosa,

Que me trouxe este bom vento:

Mais de noventa por cento

Deste Cordel, eu lhe digo,

Veio do pé do umbigo

Deste grande escritor,

Que também era doutor

À moda do tempo antigo.

 

Voltando à Limeira, sigo

Na sua biografia,

Pois seu estro propicia

Pôr a rima de castigo,

E eu tenho cá, comigo,

Que o bardo, Zé Limeira,

Já pintou a cabeileira,

Com o alvor da idade,

Portanto me deu vontade

De pôr, à minha maneira,

 

Um fim nessa brincadeira,

E encerrar o Cordel.

Que Bocage, o Manuel,

E Padre Antônio Vieira,

Se esbaldem na bebedeira,

Nesse fim de Carnaval,

Pois Zé Limeira, afinal,

Um cordelista moderno,

Só usa gravata e terno...

Do Reveillon ao Natal.

 

Herculano Alencar
Enviado por Herculano Alencar em 21/02/2026
Alterado em 21/02/2026
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