No prelo há mais de 50 anos...

O amor, poeta, é como cana azeda, A toda boca que não prova engana. (Augusto dos Anjos)

Textos

Soneto dispéptico

Conheço um poeta maniqueu,
que come verso e arrota poesia.
Um tipo raro de dispepsia,
que, embora rime, nunca convenceu.

Esse poeta um dia descreveu
seu mal-estar do jeito que sentia:
—Sinto uma dor, um tipo de azia,
como se a própria azia fosse eu.

Anos depois, quase na meia idade,
dormiu mais cedo, acordou mais tarde,
comeu um verso acre, requentado...

E arrotou, em forma de terceto,
do fel regurgitado no soneto,
o resto de um poema inacabado.
Herculano Alencar
Enviado por Herculano Alencar em 16/02/2008
Alterado em 09/10/2020
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